O GIGANTE QUE EU VENCI
Parte 1 - Quando eu era criança...
I. O começo de tudo
Parte 1 - Quando eu era criança...
I. O começo de tudo
Quando eu era pequeno, por volta de 04 ou 05 anos, eu era uma criança muito diferente das outras.
Meu pai trabalhava o dia inteiro, então fui educado por mulheres. Eu nunca pude brincar na rua, logo, meus amigos eram todos mais velhos que eu, e as crianças com quem eu podia brincar, da minha própria família, eram todas mais velhas do que eu. Eu me sentia um adulto.
Mas apesar de ter sido uma criança com mente de adulto, eu era apenas uma criança. Frágil como todas as crianças são frágeis, inseguro como todas as crianças são inseguras, carente de atenção e amor, como todas as crianças são carentes de atenção e amor.
Não posso, e nem quero, em momento algum, culpar mais pais pela vida que vivi e que pretendo relatar aqui. Mas preciso citá-los em alguns momentos, como pessoas importantes para que as coisas tivesses acontecido da forma como aconteceram.
Como disse, meu pai sempre trabalhou muito, como foi pai muito jovem, se desdobrou para dar a minha irmã e a mim, tudo o que ele pudesse nos oferecer de melhor. E assim ele fez. Sempre tivemos tudo o que queríamos. Sempre fomos as crianças que compravam mais balas, que gastavam mais dinheiro na merenda, que tinham todos os produtos licensiados da Xuxa. Éramos paparicados. Meu pai possuia uma boa vida financeira, e enquanto isso durou, nós aproveitamos bastante. Mas não tínhamos a presença constante do nosso pai em casa. Eu como o único filho homem, não tive o privilégio de aprender com o meu pai o comportamento de um homem. Cresci muito bem educado pela minha mãe, também muito jovem, aos 19 anos já era mãe de duas crianças, e cercado pela minha irmã, tias, avó materna, primas, etc. Cresci respirando a vida feminina, entendendo a mente feminina.
Por ser uma criança metida a adulta, eu tinha questionamentos não muito comuns à crianças da minha idade. E um deles marca o início do maior problema que eu enfrentei em minha vida até hoje, a depressão.
Eu, sempre muito apaixonado por fotos, olhava quase todos os dias, as mesmas fotos dos muitos álbuns que minha família tem até hoje. E sempre que via essas fotos eu percebia que meu pai tirara muitas fotos com minha irmã assim que ela nasceu (ela nasceu 03 anos antes de mim), e que na ocasião do meu nascimento, meu pai não tinha nem a metade de fotos me segurando em seus braços. Meu pai era meu grande herói, era o homem mais corajoso, o mais forte, o mais destemido, ele era meu gigante. E apesar da pouca idade, eu sofria ao perceber que não tinha muitas fotos com meu pai me segurando em seu colo, como minha irmã tinha.
É claro que isso não me fazia chorar, pensar e repensar amargamente como uma crise depressiva. Mas isso fazia com que eu me sentisse inferior, menos amado. E, mesmo que eu não soubesse definir em palavras o que eu sentia naquela época, era isso que eu sentia. Nascia em mim uma pequena raiz chamada REJEIÇÃO.
Quando eu ia brincar com minha irmã e nossos primos, eu era sempre tratado como um bebezinho, ou como quem não saberia participar da brincadeira, ou como o bobo da brincadeira. Isso me irritava muito, e como eu não tinha coragem de comprar briga com eles, eu chorava. Eu guardava aquele sentimento que me diminuia e esperava ansiosamente a chegada da minha avó materna, pois ela me tratava como se eu fosse um verdadeiro príncipe. Ao menor sinal de sua chegada, eu já me animava, e fazia-lhe uma lista das coisas ruins que eu havia sofrido quando ela não estava por perto. Não lembro direito o porque disso, mas me sentia seguro quando falava pra ela sobre as coisas que me incomodavam. Eu tinha grandes problemas, problemas sérios e difíceis de resolver, para uma criança de 04 anos. problemas como o primo que não quis emprestar o brinquedo, a irmã que me chamou de bobo, a tia quase da mesma idade que me beliscou, enfim, uma gama de problemas absurdamente pesados para a mente de uma pequena criança. Mas não para o coração de uma avó. E ela magicamente fazia eu me sentir melhor.
Quando páro para lembrar desta fase da minha infancia, me lembro de ter sido uma criança que se entristecia com muita facilidade. Talvez pelo fato de não conviver com outras crianças fora da escola, ou por ser rodeado por adultos, ou por uma pré-disposição genética, ou espiritual, não sei. O fato é que eu tinha muita facilidade para sentir-me triste.
Numa ocasião, uma de minhas tias me pediu algo emprestado, não lembro ao certo o que era, mas eu neguei. Lembro perfeitamente da situação. Quando eu lhe disse não, ela respondeu dizendo que ficaria de mal comigo. E esta foi a pior noite dos meus eternos 04 anos de idade. Eu chorei com uma dor tão profunda em meu coração, que isso nunca saiu da minha lembrança. Eu amava tanto esta minha tia, que mal conseguia imaginar minha vida prosseguindo caso ela ficasse de mal comigo. Este era um enorme problema pra mim, eu não tinha amigos, era extremamente apegado a minha família, qualquer indício de problema com eles me doía na alma, na minha alma de criança.
Por conta desta crise de choro, fiquei dias chorando sem ter um motivo. No dia seguinte minha tia já estava de bem comigo, como se nada tivesse acontecido, mas de alguma forma, aquilo mexeu com meu coraçãozinho. Por muitas vezes minha irmã, ou outra pessoa qualquer, vinha perguntar-me por que eu estava chorando, porque eu fazia isso com frequência, eu parava num canto, e do nada, absolutamente do nada, eu começava a chorar. E quando me questionavam o motivo, eu não sabia dizer, somente coçava meus pequenos olhos de menino e respondia com a voz embargada: -Não sei... tô com uma vontade de chorar. E desabava em lágrimas. Até que aquela vontade intensa e sincera passasse, e eu voltasse a agir normal. Na maioria das vezes eu me escondia para chorar, talvez por isso minha mãe nunca tenha percebido.
Fora essa tristeza que me atacava, eu sempre fui muito medroso. Tinha medo de animais, de monstros, de pessoas, de espíritos. Na minha festa de aniversário de quatro anos, o padrinho da minha irmã resolveu me fazer uma surpresa. Apareceu no meio da festa fantasiado de coelho. Com toda a boa intenção de um grande amigo da família, ele chegou certo de que me alegraria infinitamente, se apresentando como um coelho gigante. Mas não foi isso que aconteceu. Ao chegar no quintal e ver aquele monstro de orelhas gigantescas e pontudas, chorei e gritei desesperadamente, até que alguém me segurasse no colo e conseguisse me acalmar. Quando ele arrancou a cabeça da fantasia para me tranquilizar e mostrar que ele não era um inimigo, eu percebi que era apenas o padrinho da minha irmã. Quem olha as fotos daquela festa, hoje em dia, se questiona porque estou tão apavorado no colo do bondoso coelhinho. Mas mal sabem que eu ainda estava desconfiado daquele animal gigante que invadiu minha festa dos Trapalhões. Uma pena que não filmaram este momento. Eu adoraria mostrar esta cena para meus filhos no futuro.
******************************************************************************************************************
Meu pai trabalhava o dia inteiro, então fui educado por mulheres. Eu nunca pude brincar na rua, logo, meus amigos eram todos mais velhos que eu, e as crianças com quem eu podia brincar, da minha própria família, eram todas mais velhas do que eu. Eu me sentia um adulto.
Mas apesar de ter sido uma criança com mente de adulto, eu era apenas uma criança. Frágil como todas as crianças são frágeis, inseguro como todas as crianças são inseguras, carente de atenção e amor, como todas as crianças são carentes de atenção e amor.
Não posso, e nem quero, em momento algum, culpar mais pais pela vida que vivi e que pretendo relatar aqui. Mas preciso citá-los em alguns momentos, como pessoas importantes para que as coisas tivesses acontecido da forma como aconteceram.
Como disse, meu pai sempre trabalhou muito, como foi pai muito jovem, se desdobrou para dar a minha irmã e a mim, tudo o que ele pudesse nos oferecer de melhor. E assim ele fez. Sempre tivemos tudo o que queríamos. Sempre fomos as crianças que compravam mais balas, que gastavam mais dinheiro na merenda, que tinham todos os produtos licensiados da Xuxa. Éramos paparicados. Meu pai possuia uma boa vida financeira, e enquanto isso durou, nós aproveitamos bastante. Mas não tínhamos a presença constante do nosso pai em casa. Eu como o único filho homem, não tive o privilégio de aprender com o meu pai o comportamento de um homem. Cresci muito bem educado pela minha mãe, também muito jovem, aos 19 anos já era mãe de duas crianças, e cercado pela minha irmã, tias, avó materna, primas, etc. Cresci respirando a vida feminina, entendendo a mente feminina.
Por ser uma criança metida a adulta, eu tinha questionamentos não muito comuns à crianças da minha idade. E um deles marca o início do maior problema que eu enfrentei em minha vida até hoje, a depressão.
Eu, sempre muito apaixonado por fotos, olhava quase todos os dias, as mesmas fotos dos muitos álbuns que minha família tem até hoje. E sempre que via essas fotos eu percebia que meu pai tirara muitas fotos com minha irmã assim que ela nasceu (ela nasceu 03 anos antes de mim), e que na ocasião do meu nascimento, meu pai não tinha nem a metade de fotos me segurando em seus braços. Meu pai era meu grande herói, era o homem mais corajoso, o mais forte, o mais destemido, ele era meu gigante. E apesar da pouca idade, eu sofria ao perceber que não tinha muitas fotos com meu pai me segurando em seu colo, como minha irmã tinha.
É claro que isso não me fazia chorar, pensar e repensar amargamente como uma crise depressiva. Mas isso fazia com que eu me sentisse inferior, menos amado. E, mesmo que eu não soubesse definir em palavras o que eu sentia naquela época, era isso que eu sentia. Nascia em mim uma pequena raiz chamada REJEIÇÃO.
Quando eu ia brincar com minha irmã e nossos primos, eu era sempre tratado como um bebezinho, ou como quem não saberia participar da brincadeira, ou como o bobo da brincadeira. Isso me irritava muito, e como eu não tinha coragem de comprar briga com eles, eu chorava. Eu guardava aquele sentimento que me diminuia e esperava ansiosamente a chegada da minha avó materna, pois ela me tratava como se eu fosse um verdadeiro príncipe. Ao menor sinal de sua chegada, eu já me animava, e fazia-lhe uma lista das coisas ruins que eu havia sofrido quando ela não estava por perto. Não lembro direito o porque disso, mas me sentia seguro quando falava pra ela sobre as coisas que me incomodavam. Eu tinha grandes problemas, problemas sérios e difíceis de resolver, para uma criança de 04 anos. problemas como o primo que não quis emprestar o brinquedo, a irmã que me chamou de bobo, a tia quase da mesma idade que me beliscou, enfim, uma gama de problemas absurdamente pesados para a mente de uma pequena criança. Mas não para o coração de uma avó. E ela magicamente fazia eu me sentir melhor.
Quando páro para lembrar desta fase da minha infancia, me lembro de ter sido uma criança que se entristecia com muita facilidade. Talvez pelo fato de não conviver com outras crianças fora da escola, ou por ser rodeado por adultos, ou por uma pré-disposição genética, ou espiritual, não sei. O fato é que eu tinha muita facilidade para sentir-me triste.
Numa ocasião, uma de minhas tias me pediu algo emprestado, não lembro ao certo o que era, mas eu neguei. Lembro perfeitamente da situação. Quando eu lhe disse não, ela respondeu dizendo que ficaria de mal comigo. E esta foi a pior noite dos meus eternos 04 anos de idade. Eu chorei com uma dor tão profunda em meu coração, que isso nunca saiu da minha lembrança. Eu amava tanto esta minha tia, que mal conseguia imaginar minha vida prosseguindo caso ela ficasse de mal comigo. Este era um enorme problema pra mim, eu não tinha amigos, era extremamente apegado a minha família, qualquer indício de problema com eles me doía na alma, na minha alma de criança.
Por conta desta crise de choro, fiquei dias chorando sem ter um motivo. No dia seguinte minha tia já estava de bem comigo, como se nada tivesse acontecido, mas de alguma forma, aquilo mexeu com meu coraçãozinho. Por muitas vezes minha irmã, ou outra pessoa qualquer, vinha perguntar-me por que eu estava chorando, porque eu fazia isso com frequência, eu parava num canto, e do nada, absolutamente do nada, eu começava a chorar. E quando me questionavam o motivo, eu não sabia dizer, somente coçava meus pequenos olhos de menino e respondia com a voz embargada: -Não sei... tô com uma vontade de chorar. E desabava em lágrimas. Até que aquela vontade intensa e sincera passasse, e eu voltasse a agir normal. Na maioria das vezes eu me escondia para chorar, talvez por isso minha mãe nunca tenha percebido.
Fora essa tristeza que me atacava, eu sempre fui muito medroso. Tinha medo de animais, de monstros, de pessoas, de espíritos. Na minha festa de aniversário de quatro anos, o padrinho da minha irmã resolveu me fazer uma surpresa. Apareceu no meio da festa fantasiado de coelho. Com toda a boa intenção de um grande amigo da família, ele chegou certo de que me alegraria infinitamente, se apresentando como um coelho gigante. Mas não foi isso que aconteceu. Ao chegar no quintal e ver aquele monstro de orelhas gigantescas e pontudas, chorei e gritei desesperadamente, até que alguém me segurasse no colo e conseguisse me acalmar. Quando ele arrancou a cabeça da fantasia para me tranquilizar e mostrar que ele não era um inimigo, eu percebi que era apenas o padrinho da minha irmã. Quem olha as fotos daquela festa, hoje em dia, se questiona porque estou tão apavorado no colo do bondoso coelhinho. Mas mal sabem que eu ainda estava desconfiado daquele animal gigante que invadiu minha festa dos Trapalhões. Uma pena que não filmaram este momento. Eu adoraria mostrar esta cena para meus filhos no futuro.
******************************************************************************************************************