sábado, 16 de julho de 2016

A Verdade sobre o X Factor Brasil



Eu já havia postado sobre isso no facebook, e fiz um breve relato no próprio vídeo do Youtube, mas resolvi comentar por aqui também, afinal, de que adianta ser um blogueiro se num atualizar o blog? kkkkkkkk

Ha meses atrás ouvi falar que a Band traria ao Brasil juntamente com a TNT, o programa THE X FACTOR. Fiquei apaixonado. Eu curti demais a edição americana. Seria um sonho estar na primeira edição Brasileira.

Imediatamente me matriculei numa aula de canto. Contei pra minha professora todas as minhas intenções e já começamos de forma intensiva as aulas e preparativos pra gravar o vídeo da inscrição, e as prováveis músicas pras audições.

Depois de muita espera, descobri que todos os inscritos seriam chamados, meu esforço pro vídeo perfeito foi em vão. Mas tudo bem, lá eu poderia mostrar meu potencial. Teria a chance de cantar 3 músicas acapela no primeiro dia, e se passasse, 3 com playback no segundo dia de audição, que aconteceria em São Paulo.

Meu Deus! SÃO PAULO!
Eu sem um real no bolso. Tenho me dedicado exaustivamente a cuidar do Marley, que desde a cinomose ficou tetraplégico e precisa de um enfermeiro de tempo integral. Como eu iria? Meu pai teria que ajudar. Mas como eu teria coragem de pedir dinheiro pra uma loucura dessas? Não sei. Apenas pedi. Meu pai não apenas quis me ajudar, como quis me levar e ficar lá comigo, e foi o melhor companheiro de viagem que eu poderia ter.

Dia 08/07/2016 fomos nós para São Paulo, de carro. Milhões de pedágios pelas estradas do caminho, mas chegamos no hotel a tempo de descansar e ir bem cedo pra audição no dia seguinte.

Aaahhh o dia seguinte... Acordei cedíssimo. Me arrumei todo bonitinho. Tava um frio de congelar pinguim. Botei um casacão do meu pai por cima e fomos nós de metrô até o Itaquerão. Que as 7:00 da manhã já estava lotado. Entrei na fila, uma fila gigantesca, como eu nunca vi igual. Um frio, mas um frio, que eu sinceramente não tava entendendo que frio era aquele. E toma-lhe a esperar...

8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 14:30 foi a hora que eu consegui passar pela primeira portaria e entrar no terreno do estádio. E foi nesse horário que durante a revista de todos os participantes, o segurança arremessou meu guarda-chuva no lixo, aos gritos de: "SE QUISER DE VOLTA REVIRA O LIXO NA SAÍDA". Que vontade de arrebentar a cara daquele bandido. Mas me segurei. Eu tava ali por uma chance muito importante. Não ia desperdiçar por causa de um babaca. O que eu realmente queria era mijar. Mas a fila era tão grande, que resolvi esperar... Quando não deu mais eu fui ao banheiro. E fiquei 1h na fila, até encontrar as 9 cabines químicas disponíveis pra todos os milhares de candidatos. Não havia manutenção. Fiz xixi em cima do xixi e cocô alheio. Um cheiro insuportável. Achei aquilo humilhante. Mas fiquei quieto.

Reencontrei os amigos que fiz na fila, ficamos todos juntos esperando nossa senha. Éramos do 2.223 em diante. E as 19:00 depois de muito frio, muito sol e muito frio de novo, com fumaça de maconha que não podíamos evitar do nosso lado, fomos chamados.

Entramos empolgados, Seríamos ouvidos. Chamariam nossa senha.
QUE NADA!!
Era uma zona lá dentro. Vc seria atendido à medida que conseguisse chegar perto da porta. Pura sobrevivência. Eu e os meninos permanecemos unidos. Passamos a famigerada porta perto das 20h.
DEMOS DE CARA COM 25 TENDAS BRANCAS. Dessas de vender refrigerante na praia sabe? Onde dentro delas tinha 2 funcionários, sabe Deus de qual especialidade, que nos ouviriam, e julgariam se depois da tortura que passamos lá fora por quase 14h em pé, expostos a frio, calor, fome, sede, necessidades fisiológicas, tumultos, cansaço e etc, enfim, se depois de tudo de ruim que experimentamos, cantaríamos o suficiente pra ouvir um sim.

Eu tava muito tranquilo. Espantosamente tranquilo.
Até que chamaram. Não uma senha. Não um de nós. MAS 3 DE NÓS.
Sim, nossa audição não seria individual como vemos na TV com os jurados do programa. Já tínhamos nos dado conta de que aquilo era uma triagem com a produção, ok. Mas uma triagem coletiva depois de toda aquela desumanidade lá fora? Ficamos todos nervosos.

Eu entrei. Bebi um copo de água. E logo me botaram pra ser o primeiro a cantar.
Cantei COMO NOSSOS PAIS, da Elis Regina.
Cantei até bonitinho, não desafinei. Mas eu tremia por dentro. Todo estresse e insegurança da vida saíram na minha voz. Toda a tortura sofrida lá fora se mostrou presente na minha voz, e antes que eu pudesse chegar no refrão, o antipático rapaz que nos ouvia me interrompeu e disse:
"-Olha, sua voz é boa, seu timbre também, mas ainda falta alguma coisa. Estuda mais, se prepara mais, e a gente se vê ano que vem tá bom? Hoje é não. Pode ir."
E assim a menina cortou minha pulseira e carimbou minha mão, pra que eu não tentasse ser ouvido por mais ninguém.
Saí daquela tenda devastado. Meus sonhos, meus projetos, minhas expectativas, tudo foi roubado pela opinião daquele antipático rapaz.
Logo após mim saiu meu amigo, também abalado, reprovado. E o terceiro menino que estava com a gente a mesma coisa. Nosso outro amigo que entrou depois de nós 3 a mesma coisa. O mesmo discurso. E nós ali, desacreditados. Tantas horas numa fila, pra ver um qualquer nos julgar sem levar em conta todo o abalo que vivemos do lado de fora expostos a tudo.

Não tínhamos onde sentar, jogavam água como se fosse capim pros bois, mas ninguém bebia, porque o banheiro tava sem condições de uso. Não tínhamos onde nos abrigar do frio. Nem do calor. Não tínhamos onde comer. Nada. Era apenas esperar calado enquanto a garganta inflamava naquele frio infeliz.

No quintal de um estádio que abrigaria todos nós. Com banheiros pra todos nós. Cantinas pra todos nós. Mas nenhuma dignidade pra nenhum de nós. Nenhuma humanidade nos foi oferecida. Éramos apenas número, volume pra Band dizer que o programa já é um sucesso. Éramos parte da farsa que é essa coisa grotesca chamada X Factor Brasil.






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