Eu nunca consegui parar pra escrever sobre o Marley.
Talvez não seja necessário, pois ele teve tudo de mim nos 5 anos em que eu fui seu corpo, basicamente.
Mas senti falta de ter algo sobre ele aqui. Por isso escrevo.
O Marley originalmente era pra ser da Mary, ela o comprou na feira de Caxias para ser seu cachorro quando casasse. Mas eu o roubei pra mim quando a Phoebe morreu, pois não queria que a Feia ficasse sozinha.
Mas sinceramente? Eu não era apegado a ele. Na verdade eu não me permitia, era totalmente consciente. Eu sofri demais com a Phoebe e a Feia, não ia permitir que meu coração sofresse com outra perda.
Ahh que engano besta...
Eu nunca falei abertamente sobre isso, mas eu tenho certeza que uma maldição (ou entenda como um espírito maligno), encontrou uma brecha na nossa casa, quando meu pai e sua prima de Maceió (uma piranha da minha idade que se enfiou dentro da minha casa pra ter um caso com o meu pai), tentaram se pegar aqui dentro da nossa casa. Digo tentaram porque eu tava ciente do que tava acontecendo, só não podia provar, então eu simplesmente colei na vagabunda 24h. E acho que assim eu impedi, porque ficou provado pelos emails que ela mandava pra ele que eles não conseguiram se pegar como ela planejou. Mas aquela atmosfera de traição e vulgaridade abriu uma brecha espiritual, onde o mal viu passagem.
Minha Hebe adoeceu assim que aquela prostituta foi embora. Com uma semana minha filhinha morreu. E na semana seguinte, o Marley perderia pra sempre seus movimentos, se tornando um cachorro tetraplégico, fazendo de mim o seu pai por toda a eternidade.
Eu demorei muito a perdoar aquela garota. Mas até hoje não tolero o que ela fez e causou. Pra mim ela é e sempre será NESSE CASO, uma vagabunda prostituída, um lixo humano. Ela e o meu pai. Dois lixos nessa ocasião, pessoas sem a menor dignidade ou merecimento de respeito. Se eles se arrependeram, ótimo pra eles, sejam abençoados por Deus a partir de então, mas a lembrança daquela ocasião é de duas pessoas que não mereciam nada de bom na vida.
Pois bem, o Marley pegou a tal cinomose da Hebe. E com isso minha vida mudou radicalmente.
Eu tinha meu estúdio fotográfico, tava começando a decolar na minha profissão, viaja a beça como fotógrafo, me bancava, paga aluguel, luz, iptu, contas, e sobrava grana pra mim. Vidinha linda. Mas quando o Marley ficou sem os movimentos, tivemos que decidir se sacrificava ele ou se cuidaríamos até ele melhorar.
Eu li que a cinomose costumava melhorar em 3 meses, ou matava o animal. Topei cuidar. A essa altura eu tava rendido ao meu amor por ele. Mas os 3 meses passaram, viraram anos. 5 longos anos.
Eu larguei minha profissão. Meus pais tavam começando a ter sucesso na transportadora deles, e eles seriam muito mais capazes de bancar todo aquele tratamento que o Marley precisava (uma fortuna com remédios, fraldas, produtos de limpeza, produtos de curativo, médicos). Então eu resolvi largar tudo e ser o enfermeiro pessoal dele. Minha vida era acordar as 8, limpar ele e trocar as fraldas as 9, sentar ele as 10, brincar um pouco, fazer a fisioterapia eu mesmo, por alguns anos na bola de pilates, carrinho de locomoção que eu mesmo fiz com a Sheron, comida no almoço, algumas trocas de fralda durante o dia, estimulava até mesmo o cuzinho dele pra cagar pois ele não tinha essa movimentação, tinha que apertar... E finalmente as 23h a última troca de fraldas.
Ele não gostava de beber água, então tinha que botar com leite misturado. Ele não suportava ração pura, e nem comida de gente, então tive que me virar pra descobrir que ele amava ração com ovo mexido NA ÁGUA... Eu entendia ele, eu me comunicava com ele. Nesses 5 anos eu não vivi. Eu vivi a vida dele, debruçado nele, dedicado a ele, feliz por ter ele a cada dia. Grato a Deus por entender que ele dependia de mim assim como eu aprendi a depender de Deus.
Mas ficou chato não ter dinheiro pra nada, conforme o tempo passou, meu cuidado passou a ser visto pela família como uma obrigação, era quase uma escravidão não admitida. Então resolvi me virar e conciliar a essa agenda intensa de enfermaria, a criação do CAMELÔ DAS DELÍCIAS, minha marca de brownies que iniciei no ano 3 da doença dele. Agora minha rotina era cuidar dele, me lavar inteiro várias vezes por dia, pra poder fazer os brownies, vender, entregar, e cuidar dele, e banhar e fazer e vender e entregar... Uma rotina desesperadoramente cansativa.
Nos dois últimos anos de vida do Marley eu comecei a surtar. Enfim meus pais entenderam que eu precisava de um alívio. A empresa deles a essa altura tava as mil maravilhas, eles tinham reatado o casamento de boa, e só eu tava penalizado por aquela brecha que trouxe tanta tristeza pra essa casa. Mas enfim, contrataram pessoas que cuidaram dele das 10 da manhã as 17h de segunda a sexta. Era ótimo, pois nesse horário eu cuidava dos brownies sem precisar de tantos banhos e interrupções.
Minha vida se fundiu com a dele.
Eu não saía mais, pois as 23h em ponto ele chorava pra eu trocar a fraldinha dele. Eu não suportava estar longe dele. Eu me sacrifiquei por amor, era bom ter ele. Era bom deitar ele no meu colo e sentir que ele se sentia amado.
Mas era dilacerante ver ele tão doente, tão frágil. Nosso pai... quantas vezes quis interromper aquele sofrimento. Mas meus pais não deixavam. E eu cuidava. Se ele não podia ser aliviado com a morte, ele viveria o máximo bem, no tanto que eu pudesse proporcionar.
Engraçado que contar a história dele é falar sobre mim.
Com a Phoebe e a Feia, eu era como um filho que ficou órfão. Mas com o Marley, eu era PAI. Eu era a proteção e a vida dele. Pra ele, eu era o mais perto que ele teria de Deus. E eu deixava Deus me usar. Meu coração era curado enquanto eu me doava ali.
Eu fui humilhado de todas as formas nesse período. Parentes vinham aqui visitar a gente e olhavam com nojo pra mim e pra ele, como se estivésses fazendo algo errado (como eu odiei essas pessoas). Veterinários me escorraçaram de suas clínicas como se fôssemos duas pragas, e nenhum advogado quis me defender da vergonha que passei com ele quase morrendo numa maca improvisada na frente de uma clínica lotada de gente omissa que não disse um ai pra nos defender.
Quanto choro eu chorei por querer que meu neném tivesse uma vida parecida com algo vivo de verdade.
Mas na moral? As pessoas não ligavam.
Não as culpo. Mas não fingia na época que era fácil. Ele era só um cachorro, mas era o meu cachorro. E eu queria ele vivo. Ele mesmo não teve pressa de morrer.
Até as 23h de 17/04/2019.
Eu terminei de fazer meus brownies e como de costume fui direto pra ele. Quando cheguei, ele tava esquisito, parecia cansado, me olhou com tanta ternura que parecia dizer: QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU, EU NÃO AGUENTO MAIS.
E ali eu tive certeza, era o fim.
Foram 5 anos que acabariam ali, e eu não queria que acabasse. Eu era feliz com ele, e de alguma forma, ele era um pouco feliz comigo também. Mas era o fim.
Corri na minha mãe e disse pra ela que eu achava que ele ia morrer.
Ligamos pro Ramon, nosso amigo veterinário. Ele correu pra imediatamente. Deu uma injeção pra ele não sentir dor, pois a barriguinha tava dura e inchada. Sentou do nosso lado (meu e do Marley), e silenciosamente esperou. Apenas disse que não ia me deixar ali sozinho.
Meia noite e meia, do dia 18/04/2019, o Marley me olhou, respirou fundo olhando fixamente nos meus olhos, puxou o ar beeem forte e nunca soltou. Ali meu coração morreu um pouquinho. Sei la, talvez tenha morrido muito, eu nunca mais fui o mesmo. Ali o sofrimento dele terminava. Ele deve ter chegado no céu correndo pra encontrar a Phoebe e a Feia. Mas eu? Eu fiquei na merda.
Perder ele foi perder a minha vida.
5 anos adaptado a ele, o que me sobraria sem ele? Me sobrava EU.
Eu não me queria. Eu queria ele. Era melhor cuidar dele. Era mais feliz fazer ele feliz. Era mais cômodo viver os problemas dele. Ter a rotina dele. Me esconder na doença dele.
Esses 5 anos foram muito difíceis. Eu convivi com a depressão e o pânico. Com a rejeição. Com a família perto de se dissolver. Eu abri mão dos meus sonhos, dos meus projetos, eu me botei de lado. Mas quando ele morreu, eu não morri junto. E na boa, se eu pudesse escolher, eu teria escolhido morrer naquele mesmo instante. Como eu ia me reconstruir? Por onde eu ia começar?
Meus brownies eram um pretexto pra ter alguma grana enquanto cuidava dele, mas, sem ele, pra que isso continuaria?
As fotos eu entrava (e ainda hoje em 2022 eu entro) em pânico quando preciso fotografar, pois todos os problemas de traumas e traições familiares vieram durante trabalhos como fotógrafo que me geraram gatilhos com os quais até hoje não sei lidar.
Já se passaram 3 anos. E eu quase não mexi nesse assunto. Até aqui nunca consegui escrever sobre isso. E mesmo agora escrevendo, não consigo aprofundar meus sentimentos, porque dói, já chorei de gemer enquanto escrevo aqui.
Eu perdi mais do que um cachorro, eu perdi a esperança, eu cri até o ultimo minuto que Deus poderia curá-lo. E podia, Deus só não quis. E vou te contar, é muito difícil ver bondade no NÃO. Foi Deus quem cuidou de mim pessolmente igual eu cuidei do Marley. Ele foi meu corpo de pé enquanto eu tava destruído. E no absurdo da pior perda da minha vida, eu tive Deus me amando profundamente mesmo enquanto minha oração teve a pior resposta.
Eu nunca tive a chance de ter o Marley de volta pulando em mim como era no início.
Eu nunca vi ele dar alguns passinhos novamente.
Eu nunca vi a pele dele se recuperar e nascer pelos novamente.
Ele lutou por 5 anos enquanto eu me doei. E por fim, ele se foi.
E eu fiquei em pedaços.
Eu fiquei com as minhas confusões, traumas, manias, frustrações.
Já se passaram 3 anos, e eu ainda não consigo estar na rua depois das 22h, pois precisava estar em casa pra ultima troca de fraldas dele. Ficar na rua até tarde me desespera, mesmo sem ter ele pra cuidar. Mesmo eu ja tendo me mudado pra outra casa. Meu corpo e minha mente se adaptaram aquela rotina de 5 anos.
Eu ainda não consigo lembrar sem chorar, não consigo citar as coisas direito, não consigo não sofrer. Eu me tornei um pai sem filho. O buraco dentro do meu peito não cicatrizou inteiro, e eu to assustado nesse instante, pois eu deixei tanto isso pra lá que achei que tava curado, mas não. Ainda tá ferido.
Hoje eu tenho a Sônia Abrão, minha filhinha YorkShire que preenche meu dia inteiro sendo a coisinha linda do papai. Pula em mim quando chego em casa, comemora se eu voltar do portão no tempinho que fui receber uma encomenda, celebra minha companhia o dia inteiro. É UMA DELÍCIA.
Mas lá no fundo, dói a ausência do Marley e da esperança que eu tinha de que o veria curado.
Ainda dói. Ainda faz muita falta. Mas eu já consigo viver.
Minha vida mudou muito. Na verdade minha vida enfim aconteceu.
Em 2019 eu vivi.
Perdi meu grande amor que foi o Marley em Abril, e logo depois precisei encarar minha própria vida.
EU NUNCA ME DEI CONTA ATÉ DIGITAR ESSAS PALAVRAS QUE TINHA SIDO NESSA SEQUENCIA.
Eu sofri tanto, que achei que havia passado pelo menos um ano.
Não. Foram poucos meses até eu me ver e me enxergar.
Num próximo post falarei sobre mim. Como deixei ir embora uma falsa imagem de mim mesmo e aceitei me tornar EU.
Já se foram 3 anos seu meu filho... que saudade que escrever tudo isso me deu. Misericórdia.
Eu faria tudo de novo.
Eu cuidava dele tentando curtir cada minuto, pois imaginava que quando acabasse, eu ia sentir falta. Mas se eu soubesse que seria TANTA FALTA, eu tinha me doado até mais.
Talvez um dia eu consiga falar ainda mais profundamente sobre isso, mas foi importante falar agora e me dar conta que de Deus me fez tão forte. E que a morte dele liberou a minha vida pra acontecer. Meu bichinho me salvou.
Te amarei pra sempre meu neném. Um belo dia vc me recebe pulando em mim aí no céu, e eu te apresento sua irmãzinha, a Sonia Abrão.

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